A maior compradora disse que está tudo bem — e o preço caiu 3 dias seguidos

Na quarta-feira (02/09), a Barry Callebaut afirmou que sobra cacau no mundo. Os números de curto prazo dão razão a ela. Os de médio prazo dizem o contrário. Entender essa diferença vale dinheiro para quem produz.

1. O que aconteceu com o preço?

Depois de bater o nível mais alto em onze meses na segunda-feira, o cacau em Nova York caiu três dias seguidos e fechou a sexta-feira 4 de setembro em alta de apenas 14 pontos, ou 0,23%. Na semana, a queda foi de 6,9%.

O que virou o mercado foi uma declaração. Na quarta-feira, a Barry Callebaut — a maior processadora de cacau do mundo, que fornece para Mars, Nestlé e Hershey — afirmou que o mercado global de cacau está bem abastecido, e que hoje está mais preparado para lidar com riscos do que estava durante o El Niño de 2023/24, quando o preço bateu recorde.



Convertendo pelo dólar da semana (R$ 5,13), o último fechamento de Nova York equivale a cerca de R$ 1.904 por saca de 60 kg. Em Linhares, nesta terça-feira, o convencional foi cotado a R$ 1.200,00 e o certificado a R$ 1.380,00 — deságio de 37% e de 27,5% frente àquela referência. (As duas datas não são a mesma: o preço de Nova York é do fechamento de sexta-feira, o de Linhares é de hoje.)

Repare no que aconteceu entre sexta e hoje. Os dois preços caíram, mas não caíram igual: o convencional perdeu R$ 97 por saca e o certificado perdeu R$ 62. A diferença entre um e outro, que costumava ficar em torno de R$ 150, foi para R$ 180. O certificado, que pagava 11% a mais na sexta-feira, hoje paga 15% a mais.

E note, também, a velocidade: Nova York caiu na quarta-feira passada e o preço daqui já tinha caído nesta terça. Guarde essa observação também — ela volta no fim da matéria.

2. A moageira está certa — sobre hoje

Não adianta torcer contra os fatos. O que a Barry Callebaut disse é verdade, e três números independentes confirmam.

  • Os estoques da bolsa bateram a máxima de dois anos, 3.436.742 sacas;
  • Os produtores marfinenses embarcaram 2,14 milhão de toneladas aos portos entre outubro de 2025 e agosto de 2026, 19% a mais que no mesmo período do ano anterior; e
  • O órgão que regula o cacau na Costa do Marfim informou colheita de 2,06 milhão de toneladas entre junho de 2025 e junho de 2026, alta de 30% sobre 1,58 milhão.

Tem cacau. Muito. Ninguém inventou nada.

3. Mas ela respondeu a pergunta fácil. E a difícil?

O mercado não estava perguntando se tem cacau hoje. Estava perguntando se vai ter em março! E as respostas para essa pergunta são outras.

  • Gana estima a safra 2026/27 em 650 mil toneladas, 13% abaixo das 750 mil da safra passada, depois de ir ao campo contar as vagens nos pés;
  • Na Costa do Marfim, os levantamentos mostram que os frutinhos novos pegaram menos que o normal, com estimativa de 1,8 milhão de toneladas contra cerca de 2,2 milhões — 18% a menos; e
  • A StoneX cortou a sobra prevista de cacau no mundo de 149 mil para 25 mil toneladas.

E o clima? O centro de previsão do tempo dos Estados Unidos diz que há mais de 90% de chance de um El Niño muito forte no fim de 2026 e começo de 2027, e 69% de chance de que, entre outubro e dezembro, seja o evento mais forte desde 1950.

Sobre isso, a Barry Callebaut disse apenas que está “monitorando de perto“.

Ela respondeu, alto e claro, à pergunta cuja resposta era favorável a ela. Sobre a difícil, falou baixo. Isso não é mentira, é escolha sobre o que dizer em voz alta — e é a ferramenta mais eficiente que existe, justamente porque não pode ser desmentida.

4. Quanto vale, para ela, o cacau barato?

Não é preciso adivinhar. Está nos comunicados da própria empresa.

No balanço de abril deste ano, a dívida da Barry Callebaut caiu de 6,11 bilhões para 3,60 bilhões de francos suíços — quase pela metade — ajudada pela queda no preço do cacau, que reduziu o dinheiro parado em estoque. O lucro bruto subiu para 668,9 milhões mesmo vendendo menos. O presidente da empresa afirmou que a queda no preço da amêndoa é encorajadora e ajudou a gerar caixa. E funcionou: no trimestre seguinte, o volume de chocolate voltou a crescer pela primeira vez em dois anos.

Em abril, a empresa tinha emitido alerta de lucro e visto as ações caírem 17% num dia.

Ou seja: uma empresa que se recuperou por causa do cacau barato veio a público dizer que não há motivo para o cacau subir. ATENÇÃO! NÃO estamos acusando ninguém de mentir! Estamos dizendo que ela tem interesse, que o interesse é grande e que ela mesma o colocou no papel.

5. Duas coisas que ninguém te contou

Primeira: essa não é a primeira vez que acontece. Em 16 de julho, na divulgação dos resultados de nove meses, o diretor financeiro da empresa já havia dito quase a mesma coisa — que em 2023/24 o El Niño pegou a safra principal no terceiro ano seguido de déficit, e que agora a companhia vem de forte sobra e estoques amplos. Duas declarações em sete semanas, as duas em momento de preço alto. Um padrão vale mais que uma frase.

Segunda, e é a mais importante: onde está esse estoque recorde? Nos Estados Unidos.

O contrato de Nova York entrega em armazéns nos portos de Nova York, do Rio Delaware, de Hampton Roads, de Albany e de Baltimore. O outro contrato, o de Londres, entrega em Amsterdã, Antuérpia, Bremen, Hamburgo e Roterdã — todos dentro da União Europeia — e também em Liverpool e Londres, que ficam no Reino Unido, fora do bloco e fora da lei europeia. São dois sistemas separados, em dois lados do Atlântico.

O recorde de 3,4 milhões de sacas é do lado americano. E isso importa porque, em 30 de dezembro, entra em vigor a lei europeia que proíbe a entrada de cacau que não tenha comprovação de origem. Armazém cheio em Baltimore não abastece a Antuérpia em janeiro.

O número equivalente dos armazéns europeus está sendo averiguado por fontes confiáveis e entra na próxima edição.

6. O mercado só acreditou pela metade

Tem uma parte desta história que o preço do dia não mostra.

Na bolsa não existe um preço só de cacau: existe um preço para cada mês de entrega. Dá para comprar cacau para dezembro deste ano, para março, para julho do ano que vem. E o desenho desses preços diz o que o mercado espera.

Pois bem: o preço à vista caiu 6,9% na semana, mas os preços para entrega em 2027 continuam mais altos que os de dezembro deste ano, subindo até julho de 2027. E, nas últimas semanas, o ponto mais caro dessa fila andou para frente — saiu de maio e foi para julho de 2027.

Em português claro: quem precisa de cacau no meio do ano que vem segue disposto a pagar mais caro do que quem precisa agora. Ou seja: o mercado aceitou que sobra cacau hoje, mas não aceitou que vai sobrar depois!

Por isso, uma frase derruba o preço de hoje. Mas não derruba a fila inteira, porque a fila é feita de gente que vai precisar do produto e não pode se enganar.

7. Estoque cheio nem sempre quer dizer fartura! Tenha isso em mente.

Em fevereiro deste ano, os compradores internacionais se recusaram a pagar o preço oficial que a Costa do Marfim e Gana garantiam aos seus produtores, porque estava acima do preço mundial. Sem comprador, o cacau ficou parado — e foi essa recusa que engordou os estoques da bolsa.

Ou seja: parte do estoque que hoje é apresentado como prova de abundância se formou porque a indústria não quis pagar o preço pedido pelo produtor africano. Estoque cheio pode ser resultado de uma queda de braço, não de colheita boa. São coisas diferentes e costumam aparecer com a mesma cara.

E essa queda de braço tem número e tem nome. Em fevereiro, o presidente do órgão que regula o cacau em Gana, Randy Abbey, disse numa entrevista coletiva que perto de 50 mil toneladas continuavam encalhadas nos portos do país sem comprador. O motivo, na explicação dele, não teve meias palavras: os compradores acharam as amêndoas ganesas caras demais e foram procurar mais barato em outro lugar, porque são decisões de negócio. Do lado marfinense a situação foi parecida — em janeiro, o governo lançou uma operação para recomprar o cacau não vendido que se acumulava nos armazéns e ao redor dos portos desde novembro de 2025.

Cacau de verdade, colhido de verdade, parado no cais porque comprador e vendedor não fecharam preço. E o mesmo cacau, meses depois, vira estoque recorde e “prova de fartura”.

8. A tranquilidade da moageira não é a sua

A Barry Callebaut explicou por que está calma: diversificação de origens, flexibilidade para comprar de vários lugares e capacidade de misturar amêndoas de procedências diferentes.

Tudo verdade. E nada disso existe para quem tem uma fazenda.

Quando falta cacau na África, ela compra no Equador. Quando falta no Equador, ela compra na Indonésia. O produtor capixaba tem o cacau que o pé dele deu, no ano que o pé deu. Então, mesmo aceitando cada palavra do comunicado como verdadeira, a conclusão “está tudo sob controle” vale para ela e não vale para você.

9. Tá, mas… o que isso significa para o Espírito Santo?

Parte do deságio de 37% tem motivo real: frete, imposto, secagem, perda de peso, o lucro de quem compra. Isso explica por que o preço daqui é mais baixo que o de Nova York, e sempre vai ser.

Mas repare numa coisa que todo produtor conhece e quase ninguém consegue explicar: quando o preço lá fora sobe, a alta demora semanas para chegar aqui — quando chega. Quando cai, a queda vem no mesmo dia.

Isso não pode ser culpa do frete nem do imposto. Frete custa o mesmo na alta e na baixa. Custo fixo faz o preço daqui ser menor; não faz a alta demorar e a baixa correr. A explicação para a diferença de velocidade é outra, e é só uma: quem compra tem mais informação e menos pressa do que quem vende.

O que a semana ensinou é exatamente sobre isso. O preço mundial caiu 6,9% por causa de uma frase dita por uma empresa que compra cacau e que ganha dinheiro quando o cacau está barato. Se uma frase move o mercado inteiro, imagine o que ela faz numa negociação de porteira.

E aqui está o número que mais importa nesta edição. Entre sexta-feira e hoje, o cacau sem certificação caiu R$ 97 por saca e o certificado caiu R$ 62. Numa semana de baixa, quem tinha certificação apanhou menos. A diferença entre os dois, que costumava ser de R$ 150, foi para R$ 180 — de 11% para 15%.

Duas observações não fazem uma tendência, e pode ser apenas oscilação. Mas é exatamente assim que se espera que a separação comece. Faltam menos de quatro meses para a lei europeia, e o comprador que precisa revender para a Europa já não pode contar com cacau sem comprovação de origem. Quando o mercado cai, ele larga primeiro o que tem menos saída.

Por isso, duas coisas para fazer a partir desta semana:

Anote o preço da sua saca toda semana — o convencional e o certificado — junto com o fechamento de Nova York do mesmo dia. Em poucos meses você terá a sua própria série. Ela mostra se o deságio está no tamanho de sempre ou se aumentou, e mostra se a alta demora mais para chegar aqui do que a baixa. Todo produtor sente que sim; mas com a anotação, dá para provar.

A EUDR está logo ali na esquina, prepare-se para ela. A diferença de preço entre “certificado” e “não certificado” é o prenúncio do que está por vir. Providencie a papelada da origem. Coordenada de GPS do talhão e comprovação de que a área não foi desmatada. Cabruca ajuda, mas só vale se estiver documentado — mata nativa sem papel não conta nada para o comprador europeu. A Costa do Marfim, maior produtora do mundo, ainda consegue rastrear só 48% do que exporta, e não é por falta de cacau: é por falta de documento. Estabeleça o seu diferencial agora.

E, quando alguém que compra de você disser que está tudo tranquilo, faça a pergunta que a gente fez nesta matéria: o que aconteceria com o caixa dessa pessoa se você acreditasse?

Este boletim é informativo. Não é recomendação de compra, de venda nem de guardar cacau. Tome suas próprias decisões de compra, venda e estocagem. Não vamos lhe dizer o que fazer.


Fontes

– Barchart / Yahoo Finance, “Cocoa Prices Settle Higher on Pre-Weekend Short Covering”, 04/09/2026
– Barchart / Yahoo Finance, “Cocoa Prices Retreat as Supply Fears Abate”, 03/09/2026
– FoodNavigator, “Barry Callebaut says cocoa sector prepared for El Niño disruption”, 16/07/2026
– CNBC, “Barry Callebaut issues profit warning as cocoa prices fall”, 16/04/2026
– Food Ingredients First, resultados semestrais da Barry Callebaut, 17/04/2026
– FoodNavigator, “Barry Callebaut returns to growth as Q3 volumes rise for first time in two years”, 09/07/2026
– Ghana Cocoa Board, estimativa de safra 2026/27 por contagem de vagens, 20/08/2026
– StoneX, revisão de superávit global 2026/27, 29/07/2026
– NOAA / Climate Prediction Center, boletim de diagnóstico do El Niño, agosto/2026
– ICE Futures U.S. e ICE Futures Europe, especificações de armazéns de entrega
– Barchart, “Cocoa Prices Settle Higher as Dollar Weakness Induces Short Covering”, fevereiro/2026
– GBC Ghana Online, “Buyers avoid Ghana cocoa as high prices leave 50,000 tonnes unsold — COCOBOD CEO”, fevereiro/2026
– TradingEconomics, estoques não vendidos em Gana e recompra na Costa do Marfim, 06/02/2026
– CNBC Africa, taxa de rastreabilidade das exportações da Costa do Marfim, 12/05/2026
– Banco Central do Brasil, câmbio de 04/09/2026
– precodocacau.com.br, cotação do Espírito Santo, 04/09/2026



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