Atraso na Costa do Marfim, gargalo em dezembro… e você

A safra da Costa do Marfim está oito semanas atrasada — e vai desaguar toda de uma vez, bem em cima do prazo europeu.

Segunda parte de uma série de três.

Não é que tenha cacau demais. É que ele vai chegar todo junto, em novembro e dezembro, quando os exportadores precisam embarcar antes que a lei europeia entre em vigor. E, do mesmo lado da África, há cacau parado no cais que ninguém quer comprar.

1. O preço subiu lá fora. Aqui, não.

O contrato de dezembro fechou a sexta-feira, 11 de setembro, a US$ 5.913 por tonelada em Nova York, queda de 4,2% na semana. Em Londres, queda de 4,6%.

Na segunda-feira o mercado virou: Nova York fechou a US$ 6.029, e a recuperação continuou na terça. Do fechamento de sexta até agora, a alta é de cerca de 2%.

Em Linhares, nesse mesmo intervalo, nada aconteceu. O convencional segue em R$ 1.200 por saca e o certificado em R$ 1.350, exatamente os mesmos valores do fim da semana anterior.

Pelo dólar de sexta (R$ 5,0918), o fechamento de segunda em Nova York equivale a cerca de R$ 1.841 por saca de 60 kg. O deságio está em torno de R$ 640 no convencional — perto de 35% — e de R$ 490 no certificado, cerca de 27%. E aumentou nesta semana não porque alguém baixou o preço aqui, mas porque lá fora subiu e aqui ficou parado.

Agora compare com a semana passada. Quando Nova York caiu, o preço do certificado em Linhares caiu junto, R$ 30 por saca, dentro da mesma semana. Agora Nova York sobe e não se mexe nada.

É o que todo produtor reclama e quase ninguém consegue mostrar: a baixa chega depressa na saca, a alta sobe devagar. Ainda é cedo para afirmar — a alta tem dois dias, e repasse lento não é a mesma coisa que repasse que não vem. Se até sexta-feira o preço daqui continuar parado, aí a observação vira dado.

É por isso, amigo produtor, que vale anotar. Toda semana, no mesmo dia: o seu convencional, o seu certificado e o fechamento de Nova York. Em três meses você terá a prova numérica de uma coisa que hoje é só percepção — e percepção não se leva para uma negociação.

2. A primeira corrida: tudo chegando ao mesmo tempo

A safra 2026/27 da Costa do Marfim começou oficialmente em 1º de setembro, mas começou devagar. Segundo apuração da Reuters com duas fontes do órgão regulador e cinco exportadores, a colheita principal está de oito a dez semanas atrasada — por clima ruim, falta de trato nas lavouras e uma safra intermediária que se estendeu demais e atrasou a principal.

Na prática, as chegadas aos portos devem ficar abaixo de 15 mil toneladas por semana em setembro e abaixo de 25 mil em outubro. O volume de verdade só começa no fim de outubro e vai crescendo até dezembro.

Atenção a este ponto, porque ele costuma ser contado errado. Espera-se cerca de 900 mil toneladas chegando aos portos marfinenses de Abidjan e San Pedro entre outubro e dezembro. Isso é menos que as 1,1 milhão de toneladas do mesmo período do ano passado, e está dentro da faixa normal, que vai de 800 mil a 1 milhão de toneladas nesses três meses.

Mas o problema não é a quantidade, é o calendário. Um volume que normalmente se espalha por três meses vai se concentrar em poucas semanas — e as mesmas fontes esperam congestionamento nos dois portos em novembro e dezembro, com a capacidade de armazenagem sob pressão. Um executivo do setor resumiu o risco: seria preciso exportar volumes enormes numa janela muito curta em dezembro.

E o prazo final não é escolha de ninguém: é 30 de dezembro. Data em que a EUDR entra em vigor.

3. Por que a pressa? Porque o que entrar antes, fica

Aqui está a parte que quase ninguém no Brasil está explicando.

A lei europeia (EUDR) que proíbe cacau vindo de área desmatada começa a valer em 30 de dezembro de 2026 para as empresas grandes e médias. Mas o que já estiver dentro do mercado europeu antes dessa data não precisa cumprir a regra. Nem naquele mês, nem no ano seguinte. A dispensa é permanente.

Não existe prazo para processar depois. O cacau que atravessar a porta em dezembro pode ficar no armazém e ser moído em 2028. O cliente seguinte da cadeia só precisa guardar a prova de que aquilo entrou antes do prazo.

Por isso a corrida é de desembarque, não de fabricação. E por isso o grosso da safra marfinense precisa passar pelos portos em novembro — descontando que da Costa do Marfim até a Europa são semanas de viagem, quem quiser cruzar a linha tem que embarcar antes de dezembro.

4. A segunda corrida vai no sentido contrário

Enquanto o cacau com papel corre para dentro, o cacau sem papel está sendo empurrado para fora.

A Costa do Marfim, maior produtora do mundo, consegue rastrear até a cooperativa de origem apenas 48% do que exporta. Mais da metade da maior produção do planeta não tem, hoje, o documento que a Europa vai exigir.

Esse cacau não vai sumir em 30 de dezembro. Vai mudar de endereço — para os Estados Unidos, para a Ásia, para lugares onde não se pergunta sobre rastreabilidade. E vai mais barato, porque perdeu o comprador que pagava mais.

Um sinal disso já apareceu: os estoques certificados na bolsa de Nova York bateram a máxima de dois anos, com cerca de 3,4 milhões de sacas. Esses armazéns ficam em portos americanos — Nova York, Rio Delaware, Hampton Roads, Albany e Baltimore. Os armazéns europeus pertencem a outro contrato, o de Londres, e ficam em Amsterdã, Antuérpia, Bremen, Hamburgo e Roterdã, além de Liverpool e Londres, que são do Reino Unido e estão fora da lei europeia.

Um armazém cheio em Baltimore não abastece a Antuérpia em janeiro.

O número atualizado dos armazéns europeus continua sendo averiguado por fontes confiáveis, e não vamos publicá-lo sem confirmação.

5. E cacau parado no cais, que ninguém quer

Vale corrigir uma ideia que circula: nem todo cacau africano encalhado está parado por falta de documento.

Em fevereiro deste ano, cerca de 50 mil toneladas ficaram sem comprador nos portos de Gana. O motivo, dito pelo presidente do órgão que regula o cacau no país, foi outro: os compradores acharam as amêndoas ganesas caras demais e foram procurar mais barato em outro lugar. Havia também uma crise de caixa que travava o pagamento.

Preço e dinheiro, não papel. É diferente — e é uma lição que vale guardar: quando alguém diz que o mercado está travado, pergunte travado por quê.

6. A regra que faz o comprador olhar para você

Agora o detalhe técnico que muda a vida do produtor, e que quase ninguém comenta.

Depois que a regra entra em vigor, lote dispensado e lote em conformidade não podem se misturar. Cada um precisa continuar rastreável separadamente, e a declaração vale só pela parte sujeita à regra. A multa por descumprimento pode chegar a 4% do faturamento da empresa na Europa inteira.

Traduzindo: o comprador europeu não vai poder juntar o seu cacau com o cacau de origem desconhecida, nem que queira. Ele precisa de fornecedor que separe. Rastreabilidade deixa de ser um selo bonito na prateleira e vira requisito de operação.

7. O que isso significa para o Espírito Santo

Três coisas concretas.

A cabruca parte com vantagem técnica, mas precisa virar papel. Estudo do Instituto Arapyaú com o CocoaAction Brasil, apresentado em Amsterdã em fevereiro deste ano, aponta o alinhamento dos sistemas agroflorestais de cacau às exigências regulatórias internacionais, entre elas a norma europeia. Vale registrar que o estudo modelou onze sistemas produtivos na Bahia e no Pará, nenhum no Espírito Santo — o que ele mostra é que o modelo agroflorestal se encaixa, não que qualquer propriedade já esteja em conformidade.

E encaixar-se é meio caminho. A outra metade é a coordenada do talhão registrada e a comprovação de que a área não foi desmatada depois de 31 de dezembro de 2020. Isso não se resolve em dezembro; resolve-se agora.

O comprador que vai precisar de você não é a moageira de volume. É quem tem cliente na Europa e não pode misturar lote. Esse comprador não procura a saca mais barata; procura a saca que ele consegue documentar. É outra conversa comercial, com outro tipo de empresa.

E o prêmio é o termômetro — mas só se for medido direito. Ele caiu de 15% para 12,5% na semana passada e ficou parado nesta. O que importa não é o número de um dia: é a linha que ele desenha até dezembro, quando a regra europeia começa a separar os dois mercados de verdade. Quem começar a anotar hoje vai ter essa linha. Quem não anotar vai ter só opinião.

Este boletim é informativo. Não constitui recomendação de compra, venda ou retenção de cacau. Tome suas próprias decisões de compra, venda e estocagem. Nós não lhe diremos o que fazer.

Na próxima edição, a terceira parte: por que o prêmio pode não subir em janeiro — e por que isso não significa que a regra não vale.


Fontes

– CocoaIntel, fechamentos da ICE Nova York e Londres, 11/09/2026
– Banco Central do Brasil, PTAX de 11/09/2026
– Preços praticados em Linhares, coleta direta da ACAU, 08 e 11/09/2026
– Reuters, “Ivory Coast’s delayed cocoa crop could mean congested ports ahead of EU rules, sources say”, 27/08/2026 (via CNBC Africa)
– CocoaIntel e CSR Reporters, ritmo semanal de chegadas aos portos marfinenses em setembro e outubro de 2026
– Regulamento (UE) 2023/1115, prazos e disposições transitórias
– CNBC Africa, taxa de rastreabilidade das exportações da Costa do Marfim, 12/05/2026
– GBC Ghana Online, declaração do presidente do COCOBOD sobre as 50 mil toneladas sem comprador, fevereiro/2026
– XTB, estoques certificados da ICE em máxima de dois anos, 01/09/2026
– ICE Futures U.S. e ICE Futures Europe, especificações de armazéns de entrega
– Instituto Arapyaú e CocoaAction Brasil, “Viabilidade econômica de Sistemas Agroflorestais com cacau — Modelagens na Amazônia (Pará) e na Mata Atlântica (Bahia)”, apresentado no Partnership Meeting, Amsterdã, 17-18/02/2026



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