Cacau a US$ 6.636: o que está por trás da alta e o que o produtor deve fazer agora
A ACAU publica sua segunda edição do Relatório Bimestral de Inteligência de Mercado — e o cenário mudou bastante desde junho.
Em junho, quando publicamos a primeira edição do nosso Relatório Bimestral de Inteligência de Mercado, o cacau estava cotado a US$ 5.050 por tonelada. Dois meses depois, o preço fechou o mês de agosto a US$ 6.636 — uma alta de 31,6% em apenas um bimestre.
Não foi por acaso. E entender por que isso aconteceu é tão importante quanto saber o número.
O que aconteceu com o preço
O bimestre julho-agosto foi marcado por volatilidade extrema. O contrato futuro saiu de US$ 3.780 em meados de junho, disparou para US$ 6.520 em 9 de julho — alta de 70% em menos de um mês — recuou, e voltou a subir, fechando agosto em US$ 6.636.
Para o produtor capixaba, isso equivale a R$ 2.061,73 por saca de 60 kg pela cotação internacional — valor que no mercado físico local variou entre R$ 1.420 e R$ 1.576 por saca, dependendo da praça e da certificação.
Desde o fundo registrado em fevereiro de 2026 (US$ 2.846), o cacau acumulou valorização de 133% em seis meses.
Três forças que estão sustentando a alta
1. O El Niño está se fortalecendo — com força histórica
A NOAA (agência climática americana) estima mais de 90% de chance de um evento muito forte entre outubro e dezembro de 2026 — o que colocaria este El Niño entre os mais intensos já registrados desde 1950. O índice Niño 3.4, que mede a anomalia de temperatura do Pacífico equatorial, atingiu +2,7°C em meados de agosto.
Para o cacau, isso é diretamente relevante: o El Niño traz calor e seca para a África Ocidental — exatamente quando os cacaueiros africanos já estão envelhecidos, doentes e com produção comprometida. O período crítico de formação dos frutos começa em outubro. O mercado está precificando esse risco.
2. Os produtores africanos estão segurando o cacau
A Reuters confirmou que agricultores da Costa do Marfim estão deliberadamente retendo amêndoas, recusando-se a vender pelo preço que o governo paga. O fluxo semanal de embarques — que acumulava 20% acima do ano anterior — desacelerou acentuadamente. O mercado percebeu o sinal e reagiu.
3. A StoneX cortou o superávit previsto para quase zero
A consultoria StoneX, referência global em análise de commodities agrícolas, revisou sua projeção de superávit global de cacau para a safra 2026/27 de 149 mil toneladas para apenas 25 mil toneladas — deixando o mercado virtualmente sem margem de segurança diante de qualquer surpresa climática ou logística.
A queda de moagem europeia não é o que parece
A Associação Europeia do Cacau (ECA) reportou queda de 4,6% nas moagens do segundo trimestre de 2026 e retração acumulada de 7,8% no semestre. Muita gente interpretou isso como sinal de que o consumidor europeu está abandonando o chocolate.
Não é bem assim.
Queda de moagem não é queda de consumo. As moageiras estão consumindo os estoques de produtos intermediários — manteiga de cacau, licor, pó — que compraram quando a amêndoa estava a US$ 12.000 a tonelada. A amêndoa bruta não está sendo processada agora porque já existe produto processado em carteira.
Os dados de consumo real contam outra história: segundo a Circana, os seis maiores mercados europeus geraram €186 bilhões em vendas de snacks em 2026, alta de 5,5%, com doces ganhando participação em todas as regiões. O consumidor europeu de chocolate não desapareceu — ele está pagando mais por barras menores (shrinkflation) e com menos cacau na formulação (skimpflation). O crescimento é todo de valor, não de volume. A indústria está gerenciando margens. O consumidor continua comprando.
Enquanto a Europa recua, a Ásia avança
No mesmo trimestre em que a Europa registrou queda de 4,6% nas moagens, a Cocoa Association of Asia reportou alta de +25,1%. No acumulado do semestre, o crescimento asiático foi de 14,3%.
A China, com mercado avaliado entre US$ 6,1 e US$ 6,8 bilhões em 2026 e CAGR projetado de até 7,2% ao ano, ainda tem consumo per capita de apenas 0,1 kg — contra 10,9 kg na Suíça. O headroom é imenso. O Japão, principal importador asiático de chocolate em valor, tem segmento premium crescendo a 5,66% ao ano, com mercado orgânico e premium estimado em US$ 539 milhões até 2030.
A tendência é estrutural e irreversível: a demanda mundial de cacau está migrando para o leste.
Contrabando, Acordo de Abidjã e a vantagem brasileira
Esta edição do relatório traz pela primeira vez uma análise detalhada do contrabando de cacau na África Ocidental — tema polêmico, mas documentado por fontes oficiais.
Segundo o próprio COCOBOD (Ghana Cocoa Board), Gana perdeu 473.253 toneladas ao contrabando entre as safras 2021/22 e 2024/25, com pico de 253.212 toneladas em 2023/24 — gerando perda de US$ 1,1 bilhão em receita de exportação. O mecanismo é simples: a diferença de preço pago ao produtor entre Gana e Costa do Marfim incentiva o desvio de amêndoas para países vizinhos, onde são reabsorvidas nos canais oficiais de exportação sem documentação de origem.
Para a EUDR, isso é um problema fatal: cacau contrabandeado não tem geolocalização, não tem cadeia de custódia e não tem documentação de origem — exatamente o que a lei europeia exige a partir de dezembro de 2026.
Em 16 de junho de 2026, os presidentes de Gana e Costa do Marfim assinaram o Acordo de Abidjã — compromisso de harmonizar os preços pagos ao produtor em dólar e unificar o calendário de safra a partir de 1º de setembro. É um avanço significativo, mas seus resultados práticos só serão observados nos próximos meses.
O Brasil, por contraste, não possui histórico de contrabando estrutural de cacau — e tem o CAR/SICAR ativo desde 2012, monitoramento satelital do INPE/MapBiomas desde 1985 e o novo Sistema Brasileiro de Rastreabilidade do Cacau (SBRC), lançado em 2026. Essa infraestrutura é o nosso diferencial competitivo mais concreto frente ao prazo da EUDR.
O que o produtor capixaba deve fazer agora
O relatório fecha com uma orientação direta:
🔸 Cuide da lavoura agora. O El Niño está chegando. Irrigação, sombreamento e proteção fitossanitária precisam ser reforçados antes que o tempo seco se instale.
🔸 Regularize a rastreabilidade. O prazo da EUDR para grandes e médias empresas é dezembro de 2026. O cacau sem documentação será empurrado para mercados menos exigentes — que pagam menos. O cacau certificado já paga entre 1,75% e 15,3% a mais no mercado local. Procure a ACAU, o INCAPER ou a CEPLAC.
🔸 Olhe para a Ásia. A demanda europeia é madura. A asiática está crescendo a 25% ao trimestre em volume processado. Iniciativas de qualidade, rastreabilidade e produtos de valor agregado capixabas têm mercado real no Japão e na Coreia do Sul — e esse relacionamento precisa ser construído agora, antes que a China feche o ciclo produzindo seu próprio cacau premium.
Acesse o relatório completo
O Relatório de Inteligência: Mercado Global do Cacau — Ciclo Bimestral, Edição Julho/Agosto de 2026 está disponível para associados, imprensa autorizada e governos estadual e municipal. Entre em contato conosco pelo e-mail contato@acau.com.br e solicite a sua cópia (gratuitamente).
André Luiz Carvalho Scampini — Secretário Executivo da ACAU
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