Nova York caiu 10%. Em Linhares, só o cacau sem certificado pagou a conta.
Durante dez dias de queda forte na bolsa, o preço em Linhares ficou parado. Nesta terça (22/09/2026), ele se mexeu — mas só de um lado. O convencional perdeu R$ 100 por saca. O certificado não perdeu nada.
Terceira e última parte da série.
1. O que aconteceu com o preço
Em Nova York, o contrato de dezembro fechou a sexta-feira, 18 de setembro, a US$ 5.327 por tonelada. Na segunda-feira, fechou a US$ 5.307. Desde o dia 11, a queda passa de 10%.
Em Linhares, o preço que acompanhamos semana a semana ficou assim:
Durante dez dias de queda em Nova York, o preço daqui não acompanhou. Nesta terça, dois dias úteis depois do tombo de sexta, ele caiu — e caiu só no convencional. A diferença para o certificado, que ficou em R$ 150 em todas as leituras da tabela, passou para R$ 250.
Vale registrar uma coisa sobre o tempo. Na semana passada, quando Nova York subiu, a alta levou cerca de três dias para chegar a Linhares. Desta vez, a queda levou dois dias úteis. Com os dados que temos até aqui, alta e queda chegaram com atraso parecido.
Com o dólar de sexta (R$ 5,1575), o fechamento de segunda em Nova York equivale a cerca de R$ 1.642 por saca de 60 kg. O deságio ficou em torno de R$ 540 no convencional — cerca de 33% — e de R$ 290 no certificado, cerca de 18%.
2. O mercado está olhando para trás
A explicação que circula para a queda é “oferta abundante”. Os estoques certificados na bolsa de Nova York estão perto da máxima de dois anos, com cerca de 3,43 milhões de sacas. E os números de embarque da Costa do Marfim mostram alta de 18% no acumulado.
Mas repare de que safra são esses números. O acumulado de alta é da safra que terminou. A safra 2026/27 da Costa do Marfim começou em 1º de setembro — e, entre 1º e 13 de setembro, as chegadas aos portos de Abidjan e San Pedro somaram 26.800 toneladas, 44% abaixo das 48.000 do mesmo período do ano anterior.
Parte dessa queda pode ser atraso — a colheita principal está de oito a dez semanas atrasada, e houve demora na distribuição dos novos cartões eletrônicos de pagamento aos produtores. Nem toda a diferença é cacau que não existe. Mas o dado da safra nova aponta para o lado oposto ao da manchete.
Em resumo: o preço caiu olhando o retrovisor. A estrada à frente ainda não entrou na conta.
3. Por que o preço de Linhares demorou a cair?
Não dá para afirmar com certeza, e nosso boletim não vai fingir que dá. Há três explicações possíveis, e provavelmente as três pesam juntas.
O preço daqui se move por degraus, não todo dia. O comprador revisa de tempos em tempos; não acompanha cada pregão.
É fim de safra no Espírito Santo. Com menos cacau chegando à porteira, baixar o preço é arriscar ficar sem amêndoa.
E a amêndoa da Costa do Marfim não está entrando no Brasil. Em 24 de fevereiro, o Ministério da Agricultura suspendeu a importação de amêndoas da Costa do Marfim, por risco de mistura com cacau de países vizinhos, liberando apenas as cargas que já estavam a caminho. A suspensão vale até o país africano apresentar garantias formais.
Os números oficiais mostram o efeito. Segundo o Comex Stat, do governo federal, o Brasil registrou 2.002 toneladas de amêndoa marfinense em janeiro e 16.066 toneladas em fevereiro. De março a agosto, nenhuma. Sem essa alternativa, quem mói cacau no Brasil depende mais do cacau brasileiro.
4. Por que o cacau certificado não caiu?
Também aqui, não sabemos com certeza. Mas há uma explicação que se encaixa no que se sabe de como esse mercado funciona.
O cacau convencional é vendido no dia, ao preço do dia. O cacau certificado costuma ter comprador definido, com contrato e prêmio combinados antes. Quando o mercado cai, quem compra tem liberdade para baixar o preço do convencional na hora. O do certificado, amarrado a um compromisso de venda do outro lado, tem menos por onde cair.
Se for isso, a certificação não serviu, nesta semana, para ganhar mais na alta. Serviu para perder menos na queda. É uma única observação — e uma observação não é regra. Mas é exatamente o que vale a pena acompanhar nas próximas semanas.
5. Para onde vai o cacau que se mói no Brasil
Segundo o Comex Stat, entre janeiro e agosto de 2026 o Brasil exportou cerca de 39 mil toneladas de manteiga, pó e pasta de cacau. Os principais destinos foram Argentina (41%), Estados Unidos (23%), Chile (8%), Canadá (6%) e México (5%). A União Europeia inteira ficou com cerca de 7%.
Isso tem uma consequência direta: a maior parte do que se mói no Brasil não vai para a Europa. A lei europeia contra o desmatamento, que começa a valer em 30 de dezembro — faltam cerca de 100 dias —, não obriga a maior parte da moagem brasileira a pagar mais pelo cacau rastreado.
Então não espere que a regra europeia, sozinha, faça o prêmio subir em janeiro. O que esta semana mostrou é outro tipo de valor: o do cacau que tem destino certo quando o mercado aperta.
6. O que isso significa para o Espírito Santo?
Três coisas concretas.
Numa queda, o certificado segurou o preço. Nesta semana, a diferença entre ter e não ter certificação foi de R$ 100 por saca a mais de perda para quem não tinha. Uma semana não faz regra — mas faz pergunta, e ela merece ser feita toda vez que o mercado cair.
Quem paga por origem é outro comprador. É o chocolateiro que vende na Europa, o fabricante de chocolate de origem, quem precisa provar de onde veio cada lote. Esse comprador não procura a saca mais barata; procura a saca que consegue documentar. Cabruca, Indicação Geográfica e coordenada de GPS do talhão são o que ele pede.
A papelada continua valendo — e o prazo continua correndo. Faltam cerca de 100 dias para a regra europeia valer para as empresas grandes e médias. Coordenada do talhão e comprovação de que a área não foi desmatada depois de 31 de dezembro de 2020 são o passaporte para esse comprador. E cada declaração de devida diligência tem número de referência e precisa ser guardada por cinco anos. Organize agora.
E continue anotando o preço toda semana: o convencional, o certificado e o fechamento de Nova York do mesmo dia. Foi essa anotação que mostrou, nesta terça (22/09), algo que nenhuma agência internacional publicou.
Este boletim é informativo. Não constitui recomendação de compra, venda ou retenção de cacau. Tome suas próprias decisões de compra, venda e estocagem. Nós não lhe diremos o que fazer.
Fontes:
- Investing.com, fechamentos do contrato de dezembro/2026 na ICE Nova York, 18 e 21/09/2026
- Banco Central do Brasil, PTAX de 18/09/2026
- Preços praticados em Linhares, coleta direta da ACAU, 11, 15, 17, 21 e 22/09/2026
- XTB, estoques certificados da ICE Nova York, 18/09/2026
- Barchart / Yahoo Finance, embarques da Costa do Marfim por ano comercial, setembro/2026
- Conseil du Café-Cacao, via CocoaIntel, chegadas aos portos de 1º a 13/09/2026, 15/09/2026
- Reuters, via CNBC Africa, atraso da safra principal 2026/27 da Costa do Marfim, 27/08/2026
- Ministério da Agricultura e Pecuária, Despacho Decisório nº 456, Diário Oficial da União de 24/02/2026
- Comex Stat (MDIC), importações brasileiras de amêndoas de cacau (NCM 1801.00.00) por mês e país de origem, janeiro a agosto de 2026
- Comex Stat (MDIC), exportações brasileiras de pasta, manteiga e pó de cacau por país de destino, janeiro a agosto de 2026
- Conselho da União Europeia e Comissão Europeia, prazos do Regulamento (UE) 2023/1115
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