O estoque que todo mundo cita não é o estoque que vale
Durante duas semanas o mercado repetiu que há cacau sobrando, apontando para os estoques da bolsa de Nova York. Mas há dois números de estoque, eles significam coisas diferentes — e enquanto um subia, o outro caía 42%.
1. Os dois números
A bolsa de Nova York divulga, todo dia, quanto cacau está guardado nos armazéns que ela licencia. E divulga, separadamente, quanto desse cacau está certificado — isto é, já foi classificado, passou no padrão de qualidade da bolsa e pode efetivamente ser entregue a quem comprou um contrato.
São coisas diferentes, e a diferença é grande:
Os dois números de estoque da bolsa de Nova York, e o que separa um do outro.
Leia de novo, porque a conta é importante.
O total guardado subiu. O cacau que pode ser entregue caiu quase pela metade. E de cada cem sacas que estão nos armazéns da bolsa, hoje só doze podem ser entregues.
Quem leu “estoques em máxima” leu um fato verdadeiro — e entendeu a coisa errada.

A barra inteira cresceu. O pedaço escuro, que é o cacau entregável, encolheu quase pela metade.
2. Por que caiu: venceu o papel, não acabou o cacau
Aqui é preciso cuidado, porque a leitura apressada seria “sumiu cacau”. Não sumiu. As 314 mil sacas continuam no armazém — tanto que o total subiu.
O que venceu foi o certificado de classificação, e isso está escrito no regulamento da própria bolsa.
A regra 9.18(d)(ii) do contrato de cacau da ICE Futures U.S. diz que o certificado tem prazo. Se foi emitido dentro de um período de entrega, vale pelo resto daquele período e pelo período de entrega seguinte. Se foi emitido fora de um período de entrega, vale pelos dois períodos de entrega seguintes.
Os meses de entrega do cacau são março, maio, julho, setembro e dezembro. Um lote com validade até setembro perde a certificação quando o período de entrega de setembro acaba — e foi exatamente entre 29 de setembro e 2 de outubro que a queda apareceu nos relatórios.
A regra 9.18(c)(i) completa o quadro: o cacau que perdeu a validade pode ser classificado de novo, inteiro ou em parte. Mas o que reprovou no padrão da bolsa não pode ser reclassificado nem entregue.
Ou seja: parte dessas sacas vai voltar a ser certificada. Parte não vai.
3. O que isso muda para quem vende cacau
Três coisas práticas.
Estoque alto não é a mesma coisa que oferta disponível. O número que circula nas manchetes e nos relatórios é o do armazém. O número que pesa na hora de entregar contra um contrato é oito vezes menor, e ele se mexe por calendário — não por safra, não por clima, não por consumo.
O mercado se moveu durante duas semanas olhando o número errado. Isso não é acusação de ninguém; é a diferença entre um dado e o seu significado. Mas mostra uma coisa que vale guardar: nem todo número que desce ou sobe está falando do que você pensa que está falando.
E vale perguntar sempre de que número se trata. Quando alguém disser “o estoque está em máxima”, a pergunta seguinte é: máxima de quê — do que está guardado, ou do que pode ser entregue?
4. O preço na semana
Em Nova York, o contrato de dezembro fechou a sexta-feira, 9 de outubro, a US$ 5.671 por tonelada. Na sexta anterior, 2 de outubro, havia fechado a US$ 5.670. Na semana, um dólar de diferença — praticamente nada.
O caminho entre uma sexta e outra é que foi agitado. Na segunda, 5, o fechamento foi de US$ 5.867. Na quarta, 7, caiu para US$ 5.582. São 5,1% de diferença entre o maior e o menor fechamento da semana.
E, logo antes, na virada de setembro para outubro, houve um salto: de US$ 5.381 na quinta, 1º de outubro, para US$ 5.670 na sexta, 2 — alta de 5,4% em um único pregão.
E os fundos estavam apostando na baixa. Segundo a CFTC, o órgão regulador do mercado futuro nos Estados Unidos, em 29 de setembro os participantes não-comerciais — fundos e grandes especuladores — tinham 30.460 contratos comprados contra 44.579 vendidos. Líquido: 14.119 contratos vendidos, o equivalente a cerca de 141 mil toneladas apostadas na queda.
Três dias depois veio a alta de 5,4% em um pregão.
Vale explicar o que essa conta quer dizer, porque ela é menos complicada do que parece.
Quem “aposta na baixa” no mercado futuro está fazendo, na prática, o seguinte: vende hoje uma carga de cacau que não tem, comprometendo-se a entregá-la mais adiante, na esperança de conseguir comprar essa carga mais barata antes do prazo. O mercado chama isso de “estar vendido“. Se o preço cair, ele compra barato, cumpre o compromisso e fica com a diferença. É um negócio que só dá certo se o preço cair.
Agora repare no outro lado. Se o preço sobe, essa pessoa vai ter de comprar mais caro do que vendeu — e quanto mais o preço sobe, maior fica o rombo. A certa altura, ela prefere comprar logo e parar a perda.
E aqui está o ponto: essa compra empurra o preço ainda mais para cima. Quem está perdendo compra para se livrar do compromisso, a compra faz o preço subir, a subida aperta quem continua vendido, que também compra. Por isso um mercado em que muita gente está apostando na queda é um mercado que pode dar saltos bruscos — o próprio aperto vira combustível.
E o relatório seguinte mostra o que aconteceu com essas apostas. Em 6 de outubro, a CFTC registrou 42.061 contratos vendidos, contra 44.579 uma semana antes: 2.518 apostas na queda foram desfeitas, o equivalente a 25 mil toneladas. No mesmo período, o número total de contratos em aberto caiu de 183.888 para 179.765.
Essa segunda informação é a que fecha o raciocínio. Quando o preço sobe e o número de contratos abertos diminui, não é dinheiro novo chegando para comprar cacau — é gente fechando compromisso e saindo. Que é exatamente o que se espera de quem apostou na queda e viu o preço subir.
E o que o produtor tira daqui é uma pergunta, não uma conclusão: quando a bolsa dá um salto forte em um único dia, vale perguntar o que aconteceu na roça antes de concluir que o mercado virou. Às vezes não aconteceu nada na roça — aconteceu entre quem comprou e quem vendeu papel. A diferença importa, porque movimento que vem do cacau tende a durar, e movimento que vem de aposta se esgota quando as apostas acabam. Portanto, não se deixe impressionar por saltos na Bolsa. Trata-se apenas da Bolsa fazendo aquilo que sabe fazer de melhor: jogar.
Neste caso, a alta de 2 de outubro não foi devolvida: uma semana depois o mercado ainda estava naquele mesmo patamar. Mas também não foi adiante. Passou a semana inteira subindo e caindo dentro de uma faixa de 5% para terminar exatamente onde tinha começado.
A linha tracejada marca o fechamento da sexta-feira anterior.
5. Costa do Marfim: o funil de dezembro
A safra principal 2026/27 da Costa do Marfim começou em 1º de setembro, e começou atrasada.
Segundo apuração da Reuters publicada em 27 de agosto, junto a dois dirigentes do Conselho do Café e Cacau e a cinco exportadores, o atraso da colheita principal é de oito a dez semanas. A previsão daquelas fontes era de chegadas abaixo de 15 mil toneladas por semana em setembro e de 25 mil por semana em outubro.
Para o trimestre de outubro a dezembro, a expectativa registrada na mesma reportagem era de cerca de 900 mil toneladas, contra 1,1 milhão no mesmo trimestre do ano anterior. A faixa normal para esses três meses é de 800 mil a 1 milhão de toneladas — ou seja, o volume previsto não é anormal. O que é anormal é o calendário.
Para a safra principal inteira, de 1º de setembro a 28 de fevereiro, o Conselho do Café e Cacau esperava no máximo 1,4 milhão de toneladas, e os exportadores, de 1,4 a 1,45 milhão.
Esses números são de agosto e valem como previsão, não como medição: as chegadas efetivamente observadas em outubro ainda não foram divulgadas. Estamos atrás delas.
O ponto que interessa é a data. A lei europeia contra o desmatamento começa a valer em 30 de dezembro — faltam 81 dias. Uma colheita que atrasa dois meses empurra o embarque para novembro e dezembro, contra um prazo que não se move.
6. Gana: preço novo, lei nova
Gana abriu a safra 2026/27 em 25 de setembro com preço ao produtor de GH¢ 42.400 por tonelada, o equivalente a GH¢ 2.650 por saca de 64 quilos. O preço anterior era de GH¢ 41.392 — alta de GH¢ 1.008, ou 2,4%.
O anúncio foi feito por Randy Abbey, presidente do COCOBOD, e traz uma novidade que merece atenção: o valor corresponde a 71,18% do valor FOB bruto realizado, acima do piso de 70% que passou a ser obrigatório com o Ghana Cocoa Board Act de 2026, a Lei 1182.
É uma mudança de natureza, não de porcentagem. Até aqui, quanto do preço de exportação chegava ao produtor ganês era decisão administrativa. Agora é piso legal.
7. Ásia: Indonésia sobe o preço de referência
O Ministério do Comércio da Indonésia fixou, para outubro, o preço de referência de exportação da amêndoa de cacau em US$ 5.686 por tonelada, alta de 7,88% sobre setembro. O preço de referência geral (harga referensi) ficou em US$ 6.057,87, alta de 7,49%.
O ministério atribuiu o aumento às condições de mercado, aos custos de logística internacional e à dinâmica do comércio global.
Vale registrar o que esse número é: a Indonésia, quarto maior produtor mundial, usa essa referência para calcular imposto de exportação. Quando ela sobe, sobe o custo de tirar amêndoa do país — e isso aperta um pouco mais a oferta que circula fora da África Ocidental.
8. Equador: alerta de clima
Iván Ontaneda, ex-presidente da ANECACAO, a associação dos exportadores de cacau do Equador, projetou nesta semana uma perda potencial de 100 mil toneladas por causa de enchentes ligadas ao El Niño nas províncias de Guayas, Los Ríos e Manabí.
É uma projeção, não uma medição, e vem de quem conhece o setor de dentro. Fica anotada: o Equador é hoje o produtor que mais cresceu na última década, e um problema sério lá mexe no balanço mundial.
9. Espírito Santo
Em Linhares, o cacau certificado fechou a semana a R$ 1.200 a saca, na sexta-feira, 9 de outubro. Na quarta, dia 7, estava a R$ 1.270.
Ou seja: o preço do certificado caiu R$ 70 por saca, 5,5%, em dois dias — justamente quando Nova York subia 1,6%, de US$ 5.582 na quarta para US$ 5.671 na sexta.
Não é a primeira vez que o preço daqui anda em direção contrária à da bolsa, nem a primeira vez que ele anda no seu próprio tempo. Mas é a primeira vez que a nossa coleta registra isso no certificado, que até agora vinha se mostrando o mais firme dos dois preços.
Com o dólar de sexta-feira (R$ 4,9892, PTAX de fechamento do Banco Central), os US$ 5.671 equivalem a cerca de R$ 1.698 por saca de 60 quilos. O deságio no certificado ficou em torno de R$ 498, cerca de 29,3%. Na quarta-feira, dia 7, essa mesma conta dava 23,7%. Em dois dias, a distância entre o preço de Nova York e o que se paga aqui pelo cacau certificado aumentou quase seis pontos.
Um registro a mais, e ele é novo: nesta semana houve mais de um nível de preço sendo praticado na praça, com diferença da ordem de R$ 100 por saca no cacau convencional. É a primeira vez que a nossa coleta semanal capta isso.
Por que o preço de Linhares se move dessa maneira, e o que significa haver mais de um preço na mesma praça no mesmo dia, são as duas perguntas que estamos investigando agora, com dados que ainda estamos reunindo. Não vamos responder com palpite. Quando a conta fechar, ela sai aqui.
E continue anotando o preço toda semana: o convencional, o certificado e o fechamento de Nova York do mesmo dia. É essa anotação que permite ver o que as agências internacionais não publicam.
Este boletim é informativo. Não constitui recomendação de compra, venda ou retenção de cacau. Tome suas próprias decisões de compra, venda e estocagem. Nós não lhe diremos o que fazer.
Fontes
- CocoaIntel — estoques certificados e totais da ICE Futures U.S., relatórios de 28/09/2026 e 06/10/2026, com base no relatório diário da bolsa
- ICE Futures U.S. — Regras 9.18(c)(i) e 9.18(d)(ii) do contrato de cacau, regulamento público — https://www.ice.com/publicdocs/rulebooks/futures_us/9_Cocoa.pdf
- Investing.com — fechamentos do contrato de dezembro/2026 na ICE Nova York, 01/10, 02/10, 05/10, 07/10 e 09/10/2026
- CFTC (Commodity Futures Trading Commission) — Commitments of Traders, ICE Futures U.S., posições de 29/09/2026 e 06/10/2026 — https://www.cftc.gov/dea/futures/deanybtsf.htm
- Reuters, via CNBC Africa — atraso da safra principal 2026/27 da Costa do Marfim e previsão de chegadas, 27/08/2026
- Citi Newsroom — anúncio do preço ao produtor de Gana para 2026/27 e enquadramento na Lei 1182, 25/09/2026
- Ministério do Comércio da Indonésia, via Global Agriculture — preço de referência de exportação da amêndoa de cacau para outubro de 2026, 02/10/2026
- CocoaIntel — projeção de Iván Ontaneda sobre perdas no Equador, 06/10/2026
– Banco Central do Brasil — PTAX de fechamento de 09/10/2026 - Preços praticados em Linhares — coleta direta da ACAU, 28/09, 07/10 e 09/10/2026
- Conselho da União Europeia e Comissão Europeia — prazos do Regulamento (UE) 2023/1115
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